sábado, dezembro 31, 2005

ABUSO SEXUAL INFANTIL (II)

A parte honrosas exceções, minha mensagem sobre “ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA” produziu uma enxurrada de comentários e imeils me acusando de estar propagando a pedofilia e o abuso sexual de crianças, havendo, inclusive, quem me ameaçasse denunciar ao Conselho Regional de Psicologia.
Achei esse tipo de reação bastante instrutiva porque pôs às claras como é deficiente o nível de alfabetização em nosso país. Como, talvez, alguns desses semi-analfabetos tenham possibilidade de recuperação, vou repetir a essência do que eu disse de uma maneira mais palatável. Desculpem, “mais palatável” não vai dar para semi-analfabetos compreenderem: substituamos por “mais explicadinha”. Vamos lá.
Primeiro: um elemento essencial para o sucesso de uma relação terapêutica profunda é a neutralidade do analista;
Segundo: neutralidade, aqui, não significa “indiferença afetiva”, significa “capacidade de ouvir” qualquer tipo de fala proveniente do paciente: que quer matar a mãe, gosta de comer barata, de ter relações anais com porteiros e que adoraria se casar com o papa. Quem não é capaz de ter essa amplitude de escuta, não deveria ser psicanalista, deveria lavar roupa, ser alpinista, ornintólogo ou quejandos.
Terceiro: se comer barata, casar com o papa etc. é um interdito moral, ético, cultural, jurídico são assuntos relevantes, mas não para justificar a SURDEZ de um terapeuta ou de outros profissionais que trabalham com seres humanos;
Quarto: em quarenta anos de prática clínica, recebi vários pacientes que não conseguiram se livrar de seus sintomas em terapias anteriores porque quem os atendeu era SURDO para o fato de que esses pacientes, em sua infância, tinham TIDO PRAZER nos jogos sexuais que mantiveram com adultos;
Quinto: quando encontraram um terapeuta suficientemente pouco preconceituoso e hipócrita para, com neutralidade, ouvi-los falar sobre esse prazer, desembaraçaram-se de seus sintomas.
Sexto: o dito acima não implica fazer propaganda de pedofilia nem de que se abuse sexualmente de criancinhas. Fui mais palatável? Ou, em respeito aos semi-analfabetos, “mais explicadinho”?

terça-feira, dezembro 13, 2005

ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA

Há uma absurda quantidade de preconceitos e de hipocrisia na maneira com que a maior parte do “establishment” lida com a questão do chamado “abuso sexual na infância”. Tenho suficiente experiência clínica – atuando há cerca de quarenta anos não só como psicoterapeuta como enquanto supervisor de outros psicoterapeutas – para estar absolutamente convencido de que a maioria esmagadora dos que lidam com a matéria – familiares, juristas, psico-coisas (psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas,.psicanalistas et caterva), assistentes sociais etc. não são capazes de diferenciar os dois grandes sub-conjuntos de episódios que compõem o que se convencionou chamar de “abuso sexual na infância”. Tal experiência ensinou-me simplesmente o seguinte: se nos aproximamos do tema de maneira suficientemente isenta, descobriremos não só o tipo de abuso universalmente reconhecido – aquele em que a criança é a real vítima de uma arremetida sexual desagradável, desrespeitosa e violenta – como também o praticamente não reconhecido em que a abordagem sexual de um adulto em relação a uma criança foi, para essa última, agradável, respeitosa e gentil. Creio ser suficientemente neutro em minha avaliação dos fatos, para que várias pacientes me tenham relatado que foram, em sua infância, sexualmente abordadas por adultos e que, embora obrigadas pelas circunstâncias a manter segredo (o que é suficiente para produzir fixação e trauma, como exponho em meu livro “A Nova Conversa”), adoraram isso! Algumas dessas pacientes (e, por agora, estou deixando os meninos de lado), chegaram a me relatar que tinham aqueles momentos como um oásis de prazer e de carinho dentro de um contexto em que se sentiam de todo abandonadas. Pelo menos duas dessas pacientes relataram como, ao ser bolinadas – uma pelo tio, outra pelo pai – ficavam ansiando pela penetração do pênis em suas vaginas. Uma jamais externou esse desejo a seu “abusador”; a outra pediu explicitamente ao pai que a penetrasse, o que o deixou em pânico, parando de sexualmente abordá-la. Agora, reflitamos um pouco, aproveitando, para análise, a experiência da primeira. Descobriram que o tio a bolinava. O escândalo foi absoluto e o tio foi execrado, enquanto todos os familiares descreviam a menina como “coitada”, “coitada”, “coitada” (imagino que a maioria de meus leitores saibam que o termo “coitado” vem de “coito”)! Alguém acredita que, em tais circunstâncias, uma criança de 10 anos tivesse condições psicológicas para declarar: — “Pessoal, eu não sou nenhuma vítima! Eu estava gostando! Só fiquei chateada porque ele não teve coragem de enfiar o pau dele em mim!”? Um pouco difícil, não? Tal declaração, quando chega a acontecer, só pode ser feita, via de regra muitos anos depois, a um psicólogo que não seja preconceituoso nem hipócrita!

quinta-feira, dezembro 08, 2005

LOGANALISE E A CULTURA DO BEM-ESTAR

Impressiona-me como é pouco explorada, na literatura das chamadas Ciências Humanas a gritante relação entre: (a) o aparecimento da Psicanálise (b) a gradual mudança da natureza da cultura, marcante a partir do séc. XIX e (c) o contínuo aumento, nos últimos quinhentos mil anos, da expectativa de vida do gênero humano sobre este conturbado planeta. Então, vejamos:
A expectativa média de vida do Homo Erectus, o mais antigo representante de nosso gênero, era de cerca de quinze anos; seu descendente, o Homo Sapiens, podia, na Grécia Clássica, esperar viver vinte e cinco; na Europa do século XVIII, trinta e cinco; na do século XX, setenta. Levamos quinhentos mil anos para elevar a expectativa de vida de quinze para vinte e cinco anos; dois mil anos para alçá-la de vinte e cinco a trinta e cinco; duzentos, para promovê-la de trinta e cinco a setenta!
Se levamos em conta que esse aumento de nossa expectativa de vida foi obtida através de uma cultura,-- chamá-la-ei de cultura de sobrevivência — cuja tarefa maior foi proteger o organismo humano de suas causae mortis,-- sede, fome, calamidades naturais, doenças, etc. — mas que, mesmo protegido desses agentes letais, o corpo humano tem uma obsolescência natural, que ocorre após algo mais do que cem anos de vida, veremos que, entre todos os séculos, o século XIX — que, como unidade histórica merece ser visto estendendo-se da Revolução Francesa (1789) ao fim da Segunda Guerra Mundial (1945) —ocupa um lugar especial. É um verdadeiro divisor de águas, um turning point antropológico: século nenhum, antes ou depois dele, terá presenciado a expectativa de vida do ser humano dar salto maior na direção daquele ponto em que deixar de viver é um estágio natural da própria vida.
Esse estrondoso aumento da expectativa de vida ocorrido em torno à "charneira antropológica" representada pelo século XIX gerou uma profunda alteração na natureza da cultura: já sabemos, em boa medida, nos manter vivos até os limites permitidos por nossa própria natureza... Mas, em nos mantendo vivos, sabemos viver bem?
Para que isso ocorra, ao lado da tecnologia de uma cultura de sobrevivência, cumpre, inexoravelmente, que se desenvolva a tecnologia de uma cultura de bem-estar.
Parece-me, por vezes, que poucos se dão conta de que a Psicanálise,-- significativamente surgida no turning point do século XIX — representa a primeira grande tentativa de se produzir uma tal tecnologia e de como essa tentativa, representante de um novo tipo de cultura, abastardou-se nos entrechoques com o tipo de cultura que a precedeu.
O grande abastardamento ocorreu, coerentemente, sobre a maior contribuição de seu fundador, Sigmund Freud, para a construção dessa nova cultura, uma cultura que, garantida a sobrevivência, começa a ocupar-se do prazer.
Essa contribuição maior pode ser resumida em uma única frase — "Repressão causa neurose" —- e, se desejamos de fato construir essa nova cultura, é essencial que entendamos não só porque essa contribuição é "maior", mas também, como foi abastardada.
No que diz respeito à doença mental, "psicose" é a preocupação básica de uma cultura de sobrevivência; "neurose", a de uma cultura de bem-estar. Isto porque a psicose, muito mais do que a neurose, atinge o sujeito de uma forma que põe em risco sua vida e a dos demais. A neurose, muito mais facilmente do que aquela, pode ser compatível com a manutenção da vida, embora, claramente, interfira sobre o usufruto de seu prazer. Conseqüentemente, a psiquiatria do séc. XVIII ocupava-se, centralmente, da psicose, ameaça à sobrevivência, enquanto Freud, em pleno século XIX, desloca a atenção da psiquiatria para a neurose, ameaça ao prazer, revelando-se como representante da nova ordem cultural.
Focada a neurose, grande problema para uma cultura de bem-estar, o criador da Psicanálise identifica a sua causa: a repressão. E aqui vem o abastardamento, iniciado pelo próprio Freud (que, na verdade, era um produto híbrido dos dois tipos de cultura em pauta) e completado ao longo dos cem anos de história da Psicanálise.
O abastardamento — que tem impedido, até hoje, que a Psicanálise cumpra sua função de dar solidez a essa nova cultura — se fez em torno de substituir-se o conceito de repressão como recalque pelo conceito de repressão como contenção. Explico-me:
Recalque é um mecanismo psicológico que impede que um determinado sujeito dê às suas experiências internas — sensações, emoções, desejos, etc. — acesso à expressão verbal. Recalcar um sujeito, portanto, é impedir que ele represente verbalmente suas reações internas, por exemplo, a uma limitação de sua ação.
Contenção é o impedimento a que um sujeito execute uma ação não verbal.
Ora, a afirmação legitimamente psicanalítica é a de que recalque — seja, impedir que um sujeito expresse verbalmente seus estados psicológicos — gera neurose. Na medida em que — mormente através do contato com a mentalidade essencialmente behaviorista dos Estados Unidos — passou-se a entender repressão como sinônimo de contenção — seja, bloqueio de uma ação não verbal — conseguiu-se neutralizar toda a utilidade da fórmula psicanalítica original e, de passagem, destruir-se a imagem da Psicanálise, sufocando-se na origem seu imenso potencial como um poderoso instrumento de política sanitária.
Sustentada popularmente por uma pseudo-Psicanálise, a absurda proposta de que não contenhamos uns aos outros para evitarmos a criação de neuróticos, não só é imprópria para que se evite a geração de neuróticos: ela é maquiavelicamente eficaz na produção de uma multidão infindável de toxicômanos e psicopatas.
Algumas tribos primitivas, em tempos de paz, sem outras ameaças e em vista da simplicidade de sua organização econômica e social, vivem como iguais, sem qualquer hierarquia; mas, em tempos de guerra ou de outras calamidades, elegem um chefe — o chefe-da-guerra — a que todos os demais devem obediência e submissão. Com efeito, a cultura de sobrevivência, própria às condições em que existe grande ameaça à vida, tende a estruturar-se como uma sociedade de chefes absolutos que comandam uma massa de súditos uniformizada e sem grande direito à auto-expressão (= sub-ditos); a cultura de bem-estar, própria às situações de menor perigo, tende a estruturar-se como democracia, em que indivíduos bastante diferenciados são senhores de seu próprio discurso, embora aceitando limites cabíveis para sua liberdade de ação.
O sucesso da cultura de sobrevivência em, após quinhentos mil anos de lutas, quintuplicar a expectativa de vida do organismo humano sobre este planeta, levando-a ao limite do que seria sua obsolescência natural, permitiu, caracterizadamente durante o século XIX, o brotar de uma nova cultura, a cultura do bem-estar, sendo a Psicanálise o primeiro instrumento científico adequado para a implementação e suporte dessa nova cultura.
Entretanto, para que ela possa cumprir o seu papel, é necessário que a entendamos como uma Loganálise, uma libertação do discurso — da voz e do voto, como na melhor contribuição do século XIX para as instituições políticas — e não como uma proposta behaviorista, que vê como instrumento de saúde uma liberdade de ação que só pode caracterizar a lamentável anarquia de uma sociedade sem leis.
Esta Psicanálise essencialmente loganalítica é a única capaz de dar fundamento a uma nova filosofia para literatura de auto-ajuda, até agora absolutamente monopolizada por variações que se pretendem modernas da velhíssima “psicologia do pensamento positivo”, perfeita para os parâmetros de uma cultura de sobrevivência, mas absolutamente inadequada para os da cultura de bem-estar cujos caminhos, felizmente, já começamos a percorrer.

LÁPIDE

Esta é a frase que eu gostaria de ter inscrita na lápide de minha sepultura: "QUANDO MORREU, AINDA ESTAVA VIVO"

terça-feira, dezembro 06, 2005

NOTAS FILOSÓFICAS (VI): HOMENS, FORMIGAS E PETÚNIAS

O famoso moto humanista - "O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS" - não sofreu as modificações que lhe exigiria o relativismo de Einstein, que o transmudaria em "PARA O HOMEM, O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS", permitindo uma produção interminável de análogos motos, como, por exemplo, "PARA A FORMIGA, A FORMIGA É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS", "PARA PETÚNIAS, AS PETÚNIAS SÃO A MEDIDA DE TODAS AS COISAS" etc., etc., etc.
Com efeito, por que razão haveriam os homens achar que a medida de todas as coisas são as formigas, as petúnias achar que são as tulipas e os elefantes achar que são os jacarés?
Esse mundo!

quinta-feira, dezembro 01, 2005

POEMETO

Tenho nojo dessa gente
Que se comporta sempre bem,
Só por causa de um medo
Que nem sabe que tem.

quarta-feira, novembro 23, 2005

O PESCADOR DE ESTRELAS

Dormitava na praia o pescador de estrelas. A culpada fora a noite que, de tão bela, lhe trouxera novamente sua velha solidão inesquecível. Assim, embalado pelo marulhar das ondas, ele adormece, protegendo com cuidado os astros que pescara. Quanto tempo passou assim? Como saber? Apenas, ia já a Lua alta, quando, sacudido pela força de um perfume, ele estremece ao roçar de alguns cabelos. Abre os olhos. Quem era? E que importa? Entendem-se num olhar... Ele oferece-lhe as estrelas. Depois de fitá-las largamente e com um olhar profundo, ela faz um sorriso e, com carinho, coloca-as entre os seios... Juntos, deitam-se na praia. A mansidão morna da noite envolve-os como a compreensão de um velho pai. E um silêncio enorme, como o bocejo de um gigante, prolonga-se pelo céu, estende-se sobre o mar e, rolando na crista das ondas, chega preguiçosamente às areias. A noite cheira à suavidade penetrante de um perfume oriental.Sozinhos. Ele, de olhos fixos naqueles cabelos cor de ouro, que a Lua não faz que pratear, pela primeira vez esquece passado e futuro e saboreia fartamente o simples gosto do presente ...
À mesma hora, na noite seguinte, ela voltou. Sentou-se com os pés ao alcance das ondas. Curiosa, esperava que ele mergulhasse as mãos nas algibeiras e trouxesse de volta uma pequena multidão de luzes. Como crianças, brincavam: derramavam as estrelas sobre si e corriam, corriam, deixando-as cair sobre as areias, para serem molhadas pelo mar...
Assim foi. Assim é até hoje: encontram-se na praia; ele troca com ela os astros que pescou.Se amanhã será assim? Quem o sabe? Na verdade, nem ele sabe ao certo quem são aqueles cabelos, que, sob a Lua, lhe recordam o Sol, e aqueles olhos verdes, que se confundem com o mar. Na verdade, ele nunca lhe perguntou se ela virá amanhã; ela tampouco. Talvez o melhor de tudo seja a certeza de que pouco lhes importa toda a incerteza.
De tudo? Não. O melhor de tudo é ele ter podido, um dia, compartilhar com alguém as estrelas que pescou. Rio de Janeiro, 15/03/1963Luís César de Miranda Ebraico

segunda-feira, outubro 24, 2005

NOTAS FILOSÓFICAS (V): O LEITO DE PROCUSTO

Segundo uma lenda da antiga Grécia, havia um bandoleiro, chamado Procusto, que, após haver assaltado um viandante, colocava-o sobre um leito de ferro e, caso sua vítima fosse maior do que o leito, cortava o que sobrava, caso fosse menor do que ele, "esticava-o". Os filósofos da ciência - creio que do Círculo de Viena - passaram, no início do século XX, a usar a expressão "leito de Procusto" para caracterizar aquele tipo de pensador que, embora se pretendesse cientista, não suportava dados que não se adequassem a suas teorias, "cortando" os que "sobravam" e "esticando" os que "precisavam de uma ajuda". É interessante a reação da maior parte dos astrônomos à Astrologia. Há uma esmagadora quantidade de dados - estatisticamente comprovados - que demonstram a veracidade de uma plêiade de hipóteses astrológicas. Frente a esses dados, aqueles astrônomos, em vez de irem para casa chorar, porque suas teorias não dão conta desses dados, afirmam que esses dados não existem! E pretendem ser cientistas! Heil Procusto!

quinta-feira, outubro 20, 2005

SI VIS PACEM, PARA BELLUM

É necessário que sejamos objetivos em relação ao desarmamento. Comecemos por atentar para as terríveis consequências de termos uma população armada: a Suíça é um dos países mais armados do mundo (2 milhões de armas para uma população de 7 milhões de pessoas); as ocorrências de crime por arma de fogo são tão baixas que nem sequer têm valor estatístico (0,6 homicídios por cada 100 mil habitantes).
Nos Estados Unidos, onde há quase uma arma por habitante, o índice de crimes violentos caiu pela metade nos últimos dez anos. O Rio Grande do Sul tem a população mais armada de nosso país - uma arma para cada dez habitantes - e possui uma de nossas menores taxas de homicídio (12 para cada 100 mil habitantes, contra 29 para cada 100 mil no Brasil como um todo).

Agora, vejamos o quanto é importante, para reduzir a violência, desarmar uma população: na Inglaterra, a posse e a venda de armas de calibre superior a 22mm estão proibidas desde 1997; desde então, o número de homicídios aumentou 25% e o de roubos, 20%.

Na Jamaica, a posse por civis de qualquer tipo de arma de fogo ou munição foi proibida desde 1974: o índice de criminalidade continua sendo um dos mais altos do mundo (31 pessoas para cada 100 mil).

Na Austrália, desde 1996, a venda armas automáticas e semi-automáticas está proibida e restringiu-se a concessão de porte de arma: em nada se alterou o índice de criminalidade.

Agora, consideremos a situação no Brasil. Nosso país produz cerca de 200 mil armas por ano; exporta 70% delas; 20% vão para as Forças Armadas; dos 10% restantes - 20 mil armas - aproximadamente 17 mil (cerca de 90%) são adquiridas por empresas de segurança e apenas 3 mil são compradas por pessoas comuns para uso particular.

Pois bem, apoiado no improvável pressuposto de que, no Brasil como um todo, as coisas se passem de forma diversa do que no Rio Grande do Sul, na Suíça, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Jamaica e na Austrália, nosso erário está gastando aproximadamente R$ 300 milhões para preocupar-se com o destino dessas 3 mil armas! E isso não com uma população de 7 milhões de pessoas, como a da Suíça, mas com uma população de 180 milhões de pessoas e que se vê anualmente acrescida de cerca de 10 milhões.

Agora, consideremos Nova York, lugar do mundo em que, numa década, o índice de crimes violentos caiu vertiginosamente. Há pouca dúvida em relação a que o principal fator para tal foi o feroz combate, liderado pelo prefeito Rudolph Giuliani, contra a incompetência e a corrupção policial (de passagem, enquanto nossa polícia esclarece a autoria de um delito, a polícia norte-americana esclarece nove e a britânica 14).

Tudo que foi dito acima nos leva mais uma vez a lamentável conclusão de que vivemos sob a batuta de um governo que, por incompetência ou inapetência, em vez de tomar providências concretas para resolver problemas reais, prefere alocar esforços e recursos financeiros em pirotecnias marqueteiras (que, ao que parece, são fontes privilegiadas do caixa dois petista) para encantar os tolos.

Vide o Fome Zero, vide a defesa da importância de haver um assento brasileiro vitalício no Conselho de Segurança da ONU (passando, entre outras coisas, pelo ridículo e comercialmente prejudicial papel de avalizar, frente a OMC, a hipócrita pretensão da China de ser reconhecida como uma economia de mercado) e vide, agora, a proposta de redução da violência em nosso território (uma violência de nível quase jamaicano: apresentamos o invejável índice de 29 homicídios por cada 100 mil habitantes), não pelo saneamento de nossas forças policiais, mas pelo desarmamento da população civil! Com efeito, vivemos em um circo político onde os palhaços são a platéia.

Para terminar: ouvi, de moradora de uma de nossas favelas, a seguinte pérola: "Doutor, os traficantes lá da favela ficam-se rindo todos quando aparecem aqueles tratores passando em cima de uma porção de armas. E dizem: "Metade daquilo é arma de plástico. As melhores, eles vendem de volta para nós!""

Se for verdade, o que não duvido, esse "detalhe" compõe de forma perfeita o quadro e indica que o "desarmamento" já começou seu serviço: desarmar a população ordeira e renovar o arsenal bélico dos marginais!

Ah, tem outra pérola: segundo essa informante, os traficantes também afirmam que boa parte da "cocaína" queimada é sal! E com a cocaína que foi substituída por sal, o que será que acontece? Segundo esses mesmos traficantes, nossos queridos policiais traficam-na!

Antes do referendo de outubro, perguntemo-nos, portanto: para diminuir a violência, precisamos da ficção de que faremos isso ao negar o acesso a ridículas 3 mil armas aos quase 180 milhões de pessoas que compõem a população ordeira, ou precisamos de um governo disposto a acabar com a corrupção e incompetência de nossa polícia, em vez de um governo que vive de alimentar-se e de tentar alimentar o brasileiro de fantasias?

E a tarefa do povo? A tarefa do povo qual seria? A A TAREFA DO POVO É A DE, como fez Veríssimo - e sem nenhuma arma de fogo - MATAR A VELHINHA DE TAUBATÉ! Milhões e milhões de velhinhas de Taubaté! Aliás, que grande Taubaté é esse nosso Brasil!

Ah, si vis pacem, para bellum significa "se queres a paz, prepara-te para a guerra".

domingo, outubro 16, 2005

NOTAS FILOSÓFICAS (IV): OS CRITÉRIOS DE "VERDADE".

Os critérios empregados pelo ser humano para decidir se algo é ou não verdadeiro são dois: (a) a NITIDEZ E INTENSIDADE da experiência e (b) a COERÊNCIA.
Serve de exemplo para o primeiro caso a experiência de alguém cujo pai já morreu e acorda de um sonho, exclamando: - “Caramba! Sonhei que estava em um restaurante, conversando com meu pai. Era nítido COMO SE FOSSE VERDADE!”
Para o segundo caso, não há melhor exemplo do que o fenômeno denominado pela nosografia psiquiátrica de pseudo-alucinação. Nesse caso, o sujeito chega à consulta dizendo: - “Doutor, eu tenho ouvido a voz de meu pai conversando comigo! Isso é um absurdo, estou ficando maluco: ele já morreu!” Aqui, a INTENSIDADE E NITIDEZ da experiência alucinatória está tendo seu valor de verdade contestado em virtude de sua INCOERÊNCIA com outras informações, todas essas COERENTES com “morte do pai”.
É óbvio que a religião tende a empregar o primeiro desses critérios para decidir o que é verdadeiro e o que é falso — o moto credo quia absurdum é famoso testemunho disso — e a ciência, a empregar o segundo. Se a INTENSIDADE E NITIDEZ de uma experiência mística é suficiente para convencer alguém da existência de deus, a NITIDEZ E A INTENSIDADE com que se vê o Sol girar em torno da terra ao percorrer o firmamento em nada abala a teoria científica do heliocentrismo, embora deva ser notado que, nas ciências formais — lógica e matemática etc. — a COERÊNCIA exigida se refere, apenas, a proposições, enquanto, nas ciências empíricas, exige-se coerência (a) das proposições entre si e (b) entre tais proposições e os fatos empíricos.
Quanto ao INTERESSE do ser humano no problema da verdade, ele se origina, evidentemente, do fato de que, se penso ser VERDADEIRO que a padaria, que fecha às 22hs está aberta, porque ainda são 21hs30min e, ao chegar lá, lembro-me de que começou o horário de verão, pouco interessa que o verdadeiro e o falso não sejam absolutos, mas dependam das premissas a partir de que se teoriza: o que interessa aqui é que as do padeiro eram diferentes das minhas...